quarta-feira, agosto 09, 2017

IMAGINÁRiO #674

José de Matos-Cruz | 08 Setembro 2018 | Edição Kafre | Ano XV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
IMPLICAÇÕES
Poderia comentar-se assim: o bom filho à casa paterna volta… em busca de inspiração. Tratando-se de alguém como Tim Burton, talvez pareça perverso - mas, perante um facto confessado e a motivação em causa, o estrito aforismo ganha pleno sentido. Trata-se de
A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça / Sleepy Hollow (1999) - uma recriação extravagante, baseada no clássico popular de Washington Irving, The Legend of Sleepy Hollow. Em 1912, Étienne Artaud dirigira uma primeira transposição fílmica, com Alec B. Francis. Porém, foi a versão animada (de Clyde Geronimi e Jack Kinney) sob chancela Walt Disney, em 1949 com narração de Bing Crosby, que - meio século depois - aliciou Tim Burton à sua tão peculiar e determinante revisão em imagem real. Para explorar esta mesma expressão, Tim Burton - um obscuro mas talentoso animador - abandonara os Estúdios Disney, há uma quinzena de anos. O sucesso cumpriu-se, garantindo-lhe um especial estatuto em Hollywood. Criador insólito, artista mágico, Tim Burton sublima sobretudo - em temas e formas - um fabuloso imaginário: com referências infantis, de implicações nostálgicas, estigmatizando as sombras, estilizando uma irónica e vibrátil transfiguração.
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CALENDÁR
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03MAI-03SET2017 - No Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves expõe Splitting, Cutting, Writing, Drawing, Eating… de Gordon Matta-Clark (1943-1978).

11MAI-27AGO2017 - Em Lisboa, Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado apresenta Desterro - intervenção de desenho, fotografia e vídeo de Susana Anágua. IMAG.405

16MAI-09JUL2017 - Em Lisboa, Fundação Arpad Szènes-Vieira da Silva apresenta, em colaboração com Maria da Graça Carmona e Costa, Interferências - exposição de pintura e desenho de Jorge Martins. IMAG.102-333-341-386-392-460-486-617

18MAI2017 - Caos Calmo Filmes produziu, e estreia Uma Vida à Espera (2016) de Sérgio Graciano; com Miguel Borges e Isabel Abreu. IMAG.407-525

18MAI2017 - NOS Audiovisuais estreia Perdidos (2017) de Sérgio Graciano; com Dânia Neto e Afonso Pimentel. IMAG.407-525

19MAI-25JUN2017 - Em Odivelas, Centro Cultural Malaposta apresenta Cumplicidades | Encontro de Memórias - exposição de pintura de Eduardo Teixeira e Eduardo Santos Neves.

19MAI-03SET2017 - No Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves apresenta Uma História Universal de Tudo e de Nada - exposição de pintura e desenho de Julie Mehretu (Etiópia).

20MAI-03SET2017 - Em Lisboa, Culturgest expõe O Fotógrafo Acidental - Serialismo e Experimentação Em Portugal, 1968-1980.

VISTORiA
Angústia

Esta noite, não vim domar o teu corpo, ó cadela
Que encerras os pecados de um povo, ou cavar
Em teus cabelos torpes a triste procela
No incurável fastio em meu beijo a vazar.

Busco em teu leito o sono atroz sem devaneios
Pairando sob ignotas telas do remorso,
E que possas gozar após negros enleios,
Tu que acima do nada sabes mais que os mortos.

Pois o Vício, a roer a minha nata nobreza,
Tal como a ti marcou-me de esterilidade,
Mas enquanto o teu seio de pedra é cidade.

De um coração que crime algum fere com presas,
Pálido, fujo, nulo, envolto em meu sudário,
Com medo de morrer pois durmo solitário.
Stéphane Mallarmé
VISTORiA

Era Outono. Pela estrada real duas carruagens seguiam a trote rápido. Na da frente viajavam duas mulheres. Uma, a senhora, magra e pálida. A outra, a criada, gorda e de um corado lustroso. Os seus cabelos curtos e ressecados brotavam por baixo do chapéu desbotado, e a mão avermelhada, coberta por uma luva puída, ajeitava-os com gestos bruscos. O busto volumoso, envolto num lenço rústico, transpirava saúde; os olhos negros e vivazes ora espiavam pela janela os campos fugidios, ora observavam timidamente a senhora, ora lançavam olhares inquietos para os cantos da carruagem. A criada tinha bem junto ao nariz o chapéu da senhora pendurado na bagageira, um cãozinho deitado nos joelhos, os pés acima dos pequenos baús dispostos no chão, tamborilando sobre eles, em sons quase abafados pelo ruído dos solavancos das molas e do tilintar dos vidros.
De mãos cruzadas sobre os joelhos e de olhos fechados, a senhora balouçava levemente nas almofadas que lhe serviam de apoio e, com um leve franzir de cenho, dava tossidelas fundas. Tinha na cabeça uma touquinha branca de dormir e um lencinho azul celeste envolto no pescoço pálido e delicado. Uma risca brotava abaixo da touquinha e repartia os cabelos ruços, excessivamente lisos e empastados; havia qualquer coisa de seco e mortiço na brancura do couro daquela vasta risca. A pele murcha, um tanto amarelada, mal conseguia modelar as suas feições belas e esguias, que ganhavam um tom vermelho nas maçãs do rosto. Os lábios secos mexiam-se intranquilos, as ralas pestanas não se encrespavam, e o casacão de viagem formava rugas entre os seios encovados. Mesmo de olhos fechados, o rosto da senhora expressava cansaço, irritação e um sofrimento que lhe era familiar.
Recostado em seu banco, o criado dormitava na boleia; o postilhão gritava animado e fustigava a possante quadriga suada; uma vez por outra espreitava o outro cocheiro, que gritava de trás, da caleche. As marcas paralelas e largas das rodas estendiam-se nítidas e iguais pelo calcário lamacento da estrada. O céu estava cinzento e frio; a bruma húmida espalhava-se pelos campos e pela estrada. A carruagem estava abafada e recendia poeira e água-de-colónia. A doente inclinou a cabeça para trás e abriu devagar os olhos, grandes, brilhantes, de uma bela tonalidade escura.
Leon Tolstoi
- Três Mortes (excerto)

O Erro de Desconhecer o Passado

Uma obra não resolve nada, assim como o trabalho de uma geração inteira não resolve nada. Os filhos – o amanhã – recomeçam sempre e ignoram alegremente os pais, o já feito. É mais aceitável o ódio, a revolta contra o passado do que esta beata ignorância. O que havia de bom nas épocas antigas era a sua constituição, graças à qual se olhava sempre para o passado. Este, o segredo da sua inesgotável plenitude. Porque a riqueza de uma obra – de uma geração – é sempre determinada pela quantidade de passado que contém.
Cesare Pavese
- O Ofício de Viver (excerto)
EPISTOLÁRiO

A Sissi
Receio que tu não sigas o conselho do médico e continues a minar a tua saúde, até quando for tarde demais e não houver mais remédio. Nada mais posso fazer que rogar-te, sobretudo, que te alimentes.
Francisco José I
MEMÓRiA

1391-09SET1438 - D. Duarte I, o Eloquente: Décimo-primeiro Rei de Portugal, autor de Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela e de Leal Conselheiro - «Isto se deve fazer como faz Nosso Senhor, que posto que a direita carreira da perfeição seja tão estreita, que por mui poucos é seguida, porém vendo bom propósito e tenção todos traz a porto com saúde, dizendo que por muitos caminhos o podemos servir.». IMAG.194-266-322-446-552

09SET1828-1910 - Lev/Leon Nikolaievitch Tolstoi, aliás Lev/Leon Tolstoi: Escritor russo - «Os homens distinguem-se entre si, também neste aspecto: alguns primeiro pensam, depois falam e, em seguida, agem; outros, pelo contrário, primeiro falam, depois agem e, por fim, pensam.». IMAG.56-194-299-305-358-363-444-506-515-527-593-602-616

1842-09SET1898 - Étienne Mallarmé, aliás Stéphane Mallarmé: Poeta francês, crítico literário - «E já morro, e já amo / Seja a arte o vitral, ou seja uma cruz mística / Renascendo, a erguer o sonho em diadema / A um céu anterior e que a beleza nimba!». IMAG.194-210-363-595

09SET1908-1950 - Cesare Pavese: Ficcionista e poeta italiano - «Chega o momento em que nos damos conta de que tudo o que fazemos se transformará, um dia, em memória. É a maturidade. Para alcançá-la, é preciso, justamente, ter já recordações.» (Diário 1935-1950). IMAG. 56-173-233-288-375

1837-10SET1898 - Imperatriz Isabel da Áustria, aliás Isabel da Baviera, aliás Elisabeth Amalie Eugenie von Österreich-Ungarn, aliás Sissi: «Deambulo solitária sobre a Terra, há muito tempo, alienada da vida e do prazer; não tenho e nunca tive uma alma que me entendesse.» (Diário). IMAG.395-518-640-651

15SET1938-2011 - José Manuel Niza Antunes Mendes, aliás José Niza: Médico, político, escritor e músico português, criador de E Depois do Adeus - «Foi o maior compositor da nossa geração e um homem de princípios que, desde a década de ’50, foi meu parceiro na poesia e na música, para além de companheiro na política. Tinha uma personalidade multifacetada» (Manuel Alegre). IMAG.377

BREVIÁR
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Ignota / Sr. Teste edita Brincadeiras Vagas - A Boneca de Paul Éluard (1895-1932); tradução de Aníbal Fernandes. IMAG.13-53

quarta-feira, agosto 02, 2017

IMAGINÁRIO #673

José de Matos-Cruz | 01 Setembro 2018 | Edição Kafre | Ano XV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
TRANSGRESSÕES
Uma das convenções tradicionais da banda desenhada respeita à identidade secreta dos heróis, sujeitos a uma exposição pública, que os vulnerabiliza perante todos os perigos e as piores vinganças. Tal estimula os autores às mais insólitas especulações, as quais, muitas vezes, remontam às próprias origens de um desígnio justiceiro. Imagine-se então um homem privado de memória e, no entanto, constrangido por um passado obscuro, perturbante, que o torna vulnerável a volúveis suspeitas, sob ameaças que, simultaneamente, impelem o seu destino para um confronto de vingança… ou expiação! Eis os fundamentos de
XIII (1984 ) - uma das sagas mais aliciantes, com a marca da escola franco-belga. Mistério, aventura, disputam uma acção de contornos políticos - em flagrantes de espionagem, sob implicações militares - em que o poder absoluto se insinua, irreversível, pairando entre referências financeiras ou proezas criminais. Dois criadores veteranos - o argumentista Jean Van Hamme (lembrar Thorgal) e o ilustrador William Vance (lembrar Bob Morane) - conquistaram os fanáticos com as proezas do enigmático mas empolgante XIII. Entre muitos nomes, talvez mais próximo da verdade, mas o futuro é uma realidade instável…
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CALENDÁRiO

06MAI-19MAI2017 - Em Lisboa, Museu Militar apresenta
Delfim Maya [1886-1978] - Escultor Ibérico.

06MAI-03JUN2017 - No Porto, Cooperativa Árvore e Museu Nacional de Soares dos Reis apresentam
Espaços Imprevisíveis - exposição de pintura de Fernando Marques de Oliveira.

1934-09MAI2017 - Armando Baptista-Bastos: Escritor e jornalista português - «…A
actividade de escrever é demasiado natural, e de certa forma transcendente, para se reduzir às consequências de um ofício.» (O Cavalo a Tinta-da-China - 1995).  
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PRIORITÁRiO

BAPTISTA-BASTOS
Homem de coragem e convicções, autor de afeições e desafios, Baptista-Bastos celebra um envolvimento exemplar sobre a solidariedade, o compromisso, a militância, o testemunho quanto à realidade e à intervenção em Portugal, entre tanto do Século XX e tudo em pleno 3º Milénio. Ensaísta e jornalista prestigiado, a aliciante vocação do ficcionista expande-se em renovo e emoção, em sensibilidade e acuidade, em magia e fascínio. Eis a plenitude do humanista e a maturidade do escritor numa fluência propícia à inquietação, à descoberta, ao mistério, à partilha, ao desassombro, à solenidade, por quem a candura austera, a rude sobriedade inspiram e motivam, encerram e desvendam sobre a revelação e o pudor, o amor e a paixão, a identidade e a transferência, nessa inextrincável sagração de origens e inícios, de ciclos e pactos, de referências e inquietações que se assumem com pujante fruição ou sob o signo da mulher. História e memória, prenúncio e presença, retorno e futuro, constância e transfiguração, sublimam afinal Baptista-Bastos, ao forjar a criatividade sob um nexo lírico e trágico, onírico e afável, que tem a cultura como matriz, a vivência como alternativa.

José de Matos-Cruz

COMENTÁR
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David Foster Wallace

É um autor que pode escrever o que quiser. Pode fazer algo triste, divertido, descabido, arrebatador ou absurdo com igual mestria; até pode fazer tudo ao mesmo tempo.
Michiko Katutani


INVENTÁR
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O Primo Basílio
 


Em 1922, George Pallu realizou, para a Invicta Film, o drama cinegráfico O Primo Basílio, baseado no romance de Eça de Queiroz. Tudo gira, como se sabe, em volta dum adultério incómodo – entre Luísa, uma dama (bem) casada com Jorge, mas suspirante; e Basílio, um parente cosmopolita, leviano, que chega do estrangeiro… No contrato celebrado com os livreiros Lello & Irmão, estava prevista a venda da fita para o Brasil, estipulando-se quanto aos termos ficcionais e económicos: a Invicta podia «introduzir, modificar ou suprimir qualquer assunto», «segundo as exigências do cinematógrafo, desde que não fiquem alteradas as linhas gerais», «ou suprimidos os principais personagens»; a cessão foi feita «pela quantia de dois cêntimos em moeda francesa ao câmbio do dia, por metro de cada positivo vendido», «depois de deduzida a metragem dos títulos». Reproduzindo com bastante fidelidade os tipos característicos, bem como o clima fútil e a tensão expiadora, na obra literária, Pallu – também autor do argumento – não consegue, todavia, transmitir a toada sibilina, nem a feroz insolência sobre os costumes mesquinhos e a medíocre moral da época. Mesmo assim, um tema tão ousado e a sugerida escabrosidade levantaram significativa onda de protestos. Já a Invicta Cine – reconhecendo a «grande irreverência» de Eça – criticou os «delambidos púrrios, grotesca personificação da honestidade, que andam a ejacular a sua estupidez…»
A estreia comercial do filme esteve em risco, acabando por ocorrer – com distribuição Castello Lopes – em Lisboa (Condes), a 16 de Março; e no Porto (Jardim Passos Manuel), a 27 de Março de 1923. A fotografia de Maurice Laumann é sóbria mas envolvente, filtrando a mecânica do conflito (assédio, infidelidade, chantagem) através da transparência cénica (humilhação, doença, morte). O papel de Basílio, interpretado por um Robles Monteiro corpulento e bonacheirão, raro sugere o insinuante sedutor que implicaria a trama sentimental, bem servida por uma Amélia Rey Colaço na figura vulnerável e patética de Luísa. Arrebatador é, no entanto, o desempenho da notável Ângela Pinto, como Juliana, na sua única aparição em cinema: cria com o espectador uma distanciação ambígua que, no entanto, gera a cumplicidade, proferindo apartes em direcção à câmara…
Ainda no elenco, destacam-se Raul de Carvalho (Jorge), António Pinheiro (Conselheiro Acácio) e Arthur Duarte (Ernestinho). A pouco característica definição de situações, no acercamento desse estrato classista e pretensioso, algo parasitário em seus rituais de dissolução, para além das aparências morais, é contrabalançada pela dinâmica narrativa – assente numa montagem equilibrada, com recurso frequente a sequências paralelas. Assinalemos, pois, O Primo Basílio – como um exemplo marcante entre as versões cinegráficas, de ambiência urbana – sagrando corajosamente o polémico romance de Eça de Queiroz, duas ou três vezes adaptado no período sonoro: por Carlos Najera (Eurindia Films – México) em 1934; e por António Lopes Ribeiro (para Eduardo Costa) em 1959.

MEMÓRiA

1869-01SET1948 - Gabriel Georges Pallu, aliás Georges Pallu: Cineasta francês, trabalhou em Portugal ao serviço da Invicta Film, tendo dirigido várias transposições literárias, como Amor de Perdição (1921).
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02SET1928-2012 - Stuart Solomon, aliás Mel Stuart: Cineasta americano, produtor e realizador (A Maravilhosa História de Charlie / Willy Wonka and the Chocolate Factory - 1971, Brenda Starr, Reporter - 1976, Cães do Ódio / Mean Dog Blues - 1978), presidente da International Documentary Association. IMAG.278-421

02SET1928-2014 - Horace Ward Martin Tavares Silva, aliás Horace Silver: Compositor e músico americano de
jazz, saxofonista e pianista, co-fundador do hard bop, líder de The Jazz Messengers, tocou com Milt Jackson ou Paul Chambers, tendo criado «um legado entre as décadas de 1950 e 1960 altamente influente» (Diário de Notícias). IMAG.521

02SET1938-2013 – Eduardo José Nery de Oliveira, aliás Eduardo Nery: Artista plástico e fotógrafo português, ligado à
op art - «O seu trabalho em pintura, mais ligado à arte abstracta, foi inovador mesmo em termos internacionais e acompanhou Vasarely, um papel que nunca foi reconhecido» (Vítor Albuquerque Freire). IMAG.405-435-454



1910-06SET1998 - Akira Kurosawa: Cineasta nipónico, realizador de Rashomon - Às Portas do Inferno (1950) - «Por que razão se deixam os homens arrastar, sempre, para a fatalidade? Porque não podem viver em paz, com um pouco mais de bondade entre si, de uns para com os outros?». IMAG.193-267-531

1962-12SET2008 - David Foster Wallace: Escritor americano, autor de Infinite Jest (1996): «Estava a chover de um céu baixo, e a maré tinha vazado toda». IMAG.217-360
 
BREVIÁRiO

Apenas Livros edita Aurora Boreal e O Instinto Supremo de José de Matos-Cruz; terceiro universo de O Princípio Infinito, com visões de Susana Resende e Daniel Maia.
 


quinta-feira, julho 27, 2017

IMAGINÁRiO #672

José de Matos-Cruz | 24 Agosto 2018 | Edição Kafre | Ano XV – Semanal – Fundado em 2004
 
PRONTUÁRiO

SOBREVIVER
Projectados para o espaço em grande velocidade, vários astronautas avançam dois mil anos no tempo e, devido a uma avaria, descem num planeta desconhecido. Três sobreviventes atravessam uma região árida, chegando à floresta, onde se deparam com seres semelhantes a eles, mas primitivos e que não falam. Alvo de caça por cavaleiros de aparência simiesca, com trajos militares, muitos são capturados - e com eles Taylor, que acaba por despertar o interesse de um casal. Zira, especialista na raça humana, e Cornelius, um arqueólogo, intuem nele inteligência, pairando a ideia de que o macaco descende do homem, um animal inferior. Tal tese é combatida pelo Dr. Zaius, que sabe a verdade, pretendendo proceder à ablação do cérebro do prisioneiro. Após tentativas frustradas, Taylor e a companheira, Nova, lograrão escapar. Perseguido por Zaius e soldados-gorilas, Taylor fá-lo-á revelar que, de facto, se encontram na Terra, e os actuais dominadores tentam evitar que os descendentes dos antigos senhores evoluam, devido às suas tendências destruidoras. Internando-se com Nova na Zona Interdita, um horrorizado Taylor descobre, afinal, a Estátua da Liberdade, entre escombros provocados por um conflito atómico… Eis O Homem Que Veio do Futuro / Planet of the Apes (1967) de Franklin J. Schaffner, que o lendário Rod Serling extraiu dum romance original de Pierre Boulle. Um marco no cinema de ficção científica, e alegoria filosófica sobre os riscos para a nossa civilização, que se converteria em fenómeno de serialização e de distintas versões. IMAG.77-251-268

BREVIÁRiO

Dom Quixote edita A Mulher de Porto Pim de Antonio Tabucchi (1943-2012); tradução de Maria Emília Marques Mano. IMAG.269-273-404-421-535-621

Porto Editora lança Caim de José Saramago (1922-2010).  
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Quetzal edita À Beira da Água de Paul Bowles (1910-1999); tradução de Vasco Teles de Menezes. IMAG.204-247-251-304-469-582

VISTORiA

Paródia aOs Lusíadas

Os grandes paspalhões assinalados,
Que nas reuniões da Academia
Foram solenemente apepinados
Por sua telha ou sua fidalguia,
Que nas guerras das mocas esforçados
Mais do que a força humana permitia
No Teatro Académico asnearam
Tolices de que todos se espantaram;

E também as façanhas gloriosas
Dos Cabrais e Waldecks e quejandos,
Que à noite, com as vozes mais fanhosas,
andam o nível a pedir em bandos;
E as diabólicas fúrias deliciosas
De certos quintanistas memorandos,
Cantando espalharei por toda a parte.
Há-de-se rir o mundo até que farte.

Ó musa da ironia e da arruaça,
Que tens excepcionais o gesto e o peito,
Vira-te para mim e põe-te a jeito
De inspirar um poema de chalaça;
Quero um poema esplêndido, perfeito,
Que vos celebre e que subir vos faça,
Num pulo só, da glória à mor altura,
Cavaleiros da mais triste figura!
Trindade Coelho
- In Illo Tempore (1909 – excerto)
ANUÁRiO

428ac-347aC - Platão: Filósofo e matemático grego - «A educação deve propiciar ao corpo e à alma toda a perfeição e a beleza que podem ter».  
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MEMÓRiA

1861-18AGO1908 - José Francisco Trindade Coelho: Escritor português, ficcionista e poeta - «Transmontano. Pequenino mas tesinho. Alegre como uma romaria. A sua voz é um adufe ao som do qual os seus olhos bailam. Vigoroso e sadio, física e literariamente. A sua prosa é máscula: prosa com músculos e sangue. Prefere os assuntos simples aos assuntos complicados. Ao longo dos seus contos não se alastram óxidos de almas difíceis, nem se emaranham filigranas de raras psicologias. No meio dos modernos livros, os seus livros são como ingénuos colegiais entre viciosas pessoas» (Eugénio de Castro). IMAG.191-199-327

25AGO1918-1990 - Leonard Bernstein: Compositor, maestro e pianista americano - «A música pode dar nome ao inidentificável, e comunicar o que nos é desconhecido». IMAG.266-297-395-497-602

29AGO1958-2009 - Michael Joseph Jackson, aliás Michael Jackson: Cantor, compositor e dançarino americano - «Poderemos sonhar, para que os nossos sonhos se tornem realidade… Mas, teremos de ser nós a concretizá-los».  
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VISTORiA

A democracia estabelece-se quando os pobres, tendo vencido os seus inimigos, massacram alguns, banem os outros e partilham igualmente, com os restantes, o governo e as magistraturas.
Platão
- A República
CALENDÁRiO

22ABR-24JUN2017 - Em Lisboa, Galeria Zé dos Bois apresenta Duplo Vê - exposição de desenho de Mattia Denisse. IMAG.639

1944-26ABR2017 - Robert Jonathan Demme, aliás Jonathan Demme: Cineasta americano, argumentista e produtor, distinguido com o Oscar à Melhor Realização por O Silêncio dos Inocentes / The Silence of the Lambs (1991) - «Apesar de os seus títulos mais famosos terem a chancela dos grandes estúdios de Hollywood, […] foi sempre um símbolo de independência» (João Lopes). IMAG.28-157-470

26ABR-09JUN2017 - Em Lisboa, Livraria Baginski apresenta Solo Show - exposição de pintura e colagem de Ana Vidigal. IMAG.318

27ABR2017 - NOS Audiovisuais estreia Fátima (2017) de João Canijo; com Anabela Moreira e Rita Blanco. IMAG.1-13-54-63-220-299-379-462-594

28ABR-22MAI2017 - Em Lisboa, Museu Nacional de Etnologia expõe World Press Photo, sendo curadoras Suzan van der Berg e Sophie Boshouwers.

28ABR-30MAI2017 - Em Lisboa, Espaço Exibicionista apresenta Light and Darkness - exposição de pintura de Duma Arantes.

28ABR-15OUT2017 - Em Chaves, Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso expõe Corpo, Abstracção e Linguagem Na Arte Portuguesa: Obras Em Depósito da Secretaria de Estado da Cultura Na Colecção de Serralves, sendo curadores Marta Moreira de Almeida e Ricardo Nicolau.

29ABR-10SET2017 - Em Coimbra, Centro de Artes Visuais expõe Un Certain Regard - Obras da Colecção Norlinda e José Lima.

04MAI-04JUN2017 - No Porto, Silo-Espaço Cultural no NorteShopping apresenta Prepóstero - exposição de pintura de João Sousa Pinto.

04MAI-09JUN2017 - Em Lisboa, Galeria Alecrim 50 apresenta Tempo Real - exposição de pintura de Domingos Rego.

05MAI-25JUN2017 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I expõe Cerâmica de Graziela Albino.

12-30MAI2017 - Em Lisboa, A Válvula apresenta Cosmic Dream - exposição de ilustração de Ricardo Reis.

18MAI-06AGO2017 - Em Lisboa, Torreão Nascente da Cordoaria Nacional expõe O Olhar do Artista: Obras da Colecção de Serralves.

19MAI-16JUL2017 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I expõe Mãos de Maria Leal da Costa.

19MAI-10SET2017 - Em Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga / MNAA expõe Madonna - Tesouros dos Museus do Vaticano.

NOTICIÁRiO

Chistes
«Dou-te um tostão, se fores capaz de te pôr nu adiante de esta malta!» «Vê lá o que dizes…» «Digo-te isto, e aqui está o tostão!» Eis o diálogo que, no dia 16 do corrente, se deu entre a senhora Maria R., da Bemposta, e o senhor Francisco A., do Casal de Baixo. Dito e feito. O senhor A. tratou de se despir logo, e apresentou-se como Adão no Paraíso, à frente de mais de quarenta pessoas de ambos os sexos, que estavam sachando milho no sítio de Tremoçais, campo de Maiorca, concelho de Alcobaça. Houve quem gostasse e quem não gostasse da graça, que, apesar de paga com o tostão da senhora Maria, deu em resultado ir o chistoso preso para Alcobaça, onde foi entregue - depois de vestido, já se vê - à autoridade, que o autuou.
01AGO1866 - Diário de Notícias

sábado, julho 15, 2017

IMAGINÁRiO #671

José de Matos-Cruz | 16 Agosto 2018 | Edição Kafre | Ano XV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

EXPLORAÇÕES

Alargando o território da aventura a todo o mundo, a banda desenhada europeia amplia também as implicações temáticas e as expectativas de entretenimento, suscitando aos leitores a consciencialização para problemáticas que escapam à realidade e às vivências do quotidiano. Após Papous e Pigalle, Le Lombard prosseguiu Les Exploits d’Odilon Verjus com Eskimo (1998). Tudo principia algures na Calote Ártica, com a entrada do navio Honeur et Patrie no porto de Kanguersetoatsiak. Quando os inevitáveis Laurent & Odilon já rejubilavam, esperando mantimentos e provisões, prometidos há mais de um ano, sai-lhes na encomenda… o Monsenhor Golias, que pretende verificar pessoalmente os progressos que lograram na Missão. Golias sabe que a aldeia de Tuktukyaktuk está em plena região xamanista, e que os feiticeiros locais costumavam massacrar os sacerdotes. Mas, sempre é melhor que deixar os noviços «engordando, escandalosamente, nos seminários franceses»… Sarcasmo, irreverência, recortam o testemunho artístico de Yann/Yannick le Pennetier (argumento) e Laurent Verron (ilustração), em que a latitude dos dilemas religiosos se contrasta com outras motivações determinantes - como a ecologia, o racismo, a chacina de animais no habitat. Tudo isto, quando - na Alemanha - já se anuncia Adolph, mais um capítulo desta saga sacerdotal! IMAG.21-61-166-438-553

CALENDÁRiO

22FEV-31MAI2017 - Em Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal expõe & ETC: Prolegómenos a Uma Editora, com montagem de Paulo da Costa Domingos. IMAG.405-552-586-619

08ABR-27MAI2017 - Em Lisboa, Fundação Carmona e Costa expõe O Bigode Escondido Na Barba de Francisco Tropa, sendo curadora Filipa Oliveira. IMAG.399-555-603-621-641

20SET1937-15ABR2017 - Alberto Carneiro: Escultor português - «A obra de arte que não coloca qualquer problema, não é obra de arte, porque ela existe para questionar, para aumentar o campo de acção, para criar novas fronteiras, novos conceitos» (2013). IMAG.21-241-299-467-553-558

18ABR2017 - Em Évora, Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo expõe Llave del Romance Mudo de la Vida de San Antonio de Padua; sobre Fernando Martim de Bulhões e Taveira Azevedo, aliás Santo António (1195-1231).  
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18ABR-24SET2017 - Museu de Lisboa expõe, no Torreão Poente da Praça do Comércio, Debaixo dos Nossos Pés - Pavimentos Históricos de Lisboa, sendo curadoras Jacinta Bogalhão e Lígia Fernandes.

20ABR2017 - NOS Audiovisuais estreia A Ilha dos Cães (2017) de Jorge António; com Nicolau Breyner e Ciomara Morais. IMAG.29-61

22ABR2017 - Em Lisboa, Museu Nacional de Arqueologia expõe Um Museu, Tantas Colecções!, sendo comissárias Ana Isabel Palma Santos e Lívia Cristina.

28ABR-26MAI2017 - Em Leiria, Teatro José Lúcio da Silva apresenta New Energy: Amor Amores - exposição de fotografia de Mircea Albuţiu (Roménia).

28ABR-11JUN2017 - Cidadela de Cascais - Art District apresenta De Onde Vem? - exposição de fotografia de Augusto Brázio e Valter Vinagre.  
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COMENTÁRiO


De todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa para sempre o instante preciso e transitório. Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente a desaparecer e, uma vez desaparecidas, não há mecanismo no mundo capaz de as fazer voltar outra vez. Não podemos revelar ou copiar uma memória.
Henri Cartier-Bresson

VISTORiA

Acalanto

É tarde
A manhã já vem
Todos dormem
A noite também
Só eu velo
Por você, meu bem
Dorme anjo
O boi pega Neném

Lá no céu
Deixam de cantar
Os anjinhos
Foram se deitar
Mamãezinha
Precisa descansar
Dorme, anjo
Papai vai lhe ninar

«Boi, boi, boi,
Boi da cara preta
Pega essa menina
Que tem medo de careta»
Dorival Caymmi
PARLATÓRiO

Dorival Caymmy
Se eu pensar em música brasileira, eu vou sempre pensar em Dorival Caymmi. Ele é uma pessoa incrivelmente sensível, uma criação incrível. Isso sem falar no pintor, porque o Dorival também é um grande pintor.
Tom Jobim
 
Toda a pintura moderna apela a uma nova construção do espaço, que tem a ver mais com o que se sabe do que com o que se vê.
António Charrua

Um actor precisa de ter, no mínimo, dez anos de carreira para ser mais ou menos bom na sua arte.
António Assunção

Trabalho sobre a energia da matéria, sobre a natureza, sobre os elementos - a água, a terra, o fogo e o ar. Tenho um grande amor pela natureza.
Trabalho sobre árvores, não sobre madeira. Nunca cortei uma árvore.
Alberto Carneiro (2011)
MEMÓRiA

1914-16AGO2008 - Dorival Caymmi: Cantor, compositor, poeta e pintor brasileiro - «Adeus, vivo sempre a dizer adeus / Adeus, pois não posso esquecer, adeus / Inda me lembro de um lenço de longe acenando pra mim / Talvez com indiferença sem pena de mim / Adeus, quando olho pro mar, adeus / Adeus, quando vejo luar, adeus / Tudo que é belo na vida recorda um amor que perdi / Tudo recorda uma vida feliz que eu vivi». IMAG.211-464

1945-20AGO1998 - António José Dias Assunção, aliás António Assunção: Actor português - «É notória a extraordinária humanidade que imprimia às suas personagens, a graça que tinha, a sua enorme capacidade de contactar com o público» (Rui Mendes). IMAG.48-191

1925-21AGO2008 - António Dias Charrua, aliás António Charrua: Artista plástico português - «A sua pintura, num primeiro período, caracterizou-se por uma busca estrutural da figura, de eixos verticais muito marcados. Mais tarde, estes eixos serviram de apoio estrutural no processo de abstracionismo ao qual se dedicou a partir dos finais dos anos cinquenta. Mas, ao longo da seguinte década, […] explorou as possibilidades expressionistas do informalismo, contrastando listas de cores puras com zonas castanhas ou cinzentas. O passo seguinte foi a introdução de colagens e objetos combinados com pintura.» IMAG.212-575

22AGO1908-2004 - Henri Cartier-Bresson: Fotógrafo francês - «Para mim, a fotografia é um reconhecimento simultâneo, numa fracção de segundo, do significado do acontecimento, bem como da precisa organização das formas que dá ao acontecimento a sua exacta expressão». IMAG.5-477-522-525

BREVIÁRiO

Livros do Brasil edita Rumo ao Mar Branco de Malcolm Lowry (1909-1957); tradução e prefácio de Daniel Jonas. IMAG.187-209-236

INCM/Imprensa Nacional - Casa da Moeda edita Poesia Completa de Mário Dionísio (1916-1993). IMAG.89-243-443-530-553-571-618

Dom Quixote edita O Fim da Aventura de Graham Greene (1904-1991); tradução e prefácio de Jorge de Sena (1919-1978). IMAG.10-160-180-387-388-485

Companhia das Ilhas edita Lugar de Massacre de José Martins Garcia (1941-2002).

Dom Quixote edita A Conspiração Cellamare de Nuno Júdice. IMAG.132-310-421-463-562-627

EXTRAORDINÁRiO

OS HUMANIMAIS - Folhetim Aperiódico

BUÇO COM LEITE MANCHA O COLETE - 2

Pronto, tinham-se acabado os dias de receio e pavor sobre o Fim do Mundo, anunciados com a passagem do Cometa Peribelo.
Num desses instantes mais mirabolantes, alguns abandonaram os afazeres e dirigiram-se ao Barreiro, pelo desejo de tomarem o comboio, recolhendo a suas casas. Preferiam morrer junto das famílias.
Continua