domingo, abril 22, 2018

IMAGINÁRiO #712

José de Matos-Cruz | 24 Abril 2019 | Edição Kafre | Ano XVI – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

TRANSGRESSÕES
Uma das virtualidades mais fascinantes, no tradicional imaginário fantástico, diz respeito ao robô - criatura metálica, concebida à imagem do homem, primordialmente para o servir, com fins pacíficos ou agressores. Essa expectativa, herdada do Século XIX, transformar-se-ia em ameaça, durante a Idade de Ouro, numa alusão ao lendário Frankenstein de Mary Shelley. Virando-se contra o inventor, motivado por desígnios totalitaristas, intruso alienígena ou adquirindo instintos sexuais, o robô assumiu pois uma consciência, sendo fisicamente invulnerável. Em 1950, e por vinte anos, Isaac Asimov celebrou a Era Clássica, com as Leis do Comportamento Robótico - a programar no cérebro de cada um, e assegurando a sua submissão ao homem. Aceites pela generalidade dos autores, mesmo quando exploram uma eventual transgressão, tais normas culminariam as potencialidades romanescas da moderna ficção científica, expandindo-se finalmente ao grande ecrã, com O Homem Bicentenário (1999) de Chris Columbus. Em causa está, precisamente, uma novela de Asimov & Robert Silverberg, The Positronic Man, adaptada por Nicholas Kazan. A acção decorre na primeira década deste novo milénio, referenciada pelos dois primeiros preceitos do código de Asimov: 1 - «Um robô não pode ferir um ser humano ou, através da sua inacção, causar-lhe qualquer mal»; 2 - «Um robô deve obedecer a todas as ordens humanas, excepto quando estas forem contra a primeira regra». Eis o dilema em que Andrew se debaterá…IMAG.5-365

CALENDÁRiO

07DEZ2017-26FEV2018 - Em Lisboa, Museu Calouste Gulbenkian expõe Olho Zoomórfico / Camera Trap de Mariana Silva, sendo curadora Leonor Nazaré.

12JAN-24FEV2018 - Em Lisboa, Galeria Pedro Cera apresenta Natural Yogurt Paintings - exposição de pintura de Frank Nitsche (Alemanha).

18JAN-24FEV2018 - Em Lisboa, Galeria Cristina Guerra apresenta Reel Time - exposição de vídeo, filme e performance de Julião Sarmento. IMAG.33-341-427-437-524-554-625-631-646

19JAN-10MAR2018 - Em Lisboa, Galeria 3 + 1 apresenta Atrás do Pensamento - exposição de pintura de Tiago Baptista.

19JAN-17MAR2018 - Em Lisboa, Galeria Jeanne Bucher Jaeger apresenta Les Naïfs - exposição de pintura de André Bauchant (1873-1958) e Louis-Auguste Déchelette (1894-1964).

1920-22JAN2018 - Maria Germana Dias da Silva Moreira Tânger Corrêa, aliás Maria Germana Tânger: Declamadora portuguesa, poetisa, actriz, encenadora e professora - «Foram 40 anos muito vividos, muito sofridos, muita divulgação dos poetas por esse mundo fora, muito Fernando Pessoa!» (1999).

1914-23JAN2018 - Nicanor Segundo Parra Sandoval, aliás Nicanor Parra: Poeta e matemático chileno, distinguido com o Prémio Cervantes (2011) - «Durante meio século, / a poesia foi / o paraíso do tonto solene, / até que cheguei eu / e instalei-me com a minha montanha russa.».

24JAN-21ABR2018 - Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa expõe Compêndio de Observações Fotográficas - Luz e Cegueira de Valter Ventura.

26JAN-31MAR2018 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I expõe Fundação Bienal de Arte de Cerveira: Uma Antologia, sendo curadora Luísa Soares de Oliveira.

PARLATÓRiO

Uma palavra resume e define a rota medieval: o perigo. Por toda a parte, no seu percurso, riscos, a incerteza do amanhã. Perigo dos homens, perigo da natureza, rigores do clima, privação. Perigos previstos, imaginados, temidos, mas aceitos; nos primeiros tempos misteriosos, desconhecidos, depois, quando se está mais bem informado pelos que retornaram, perigos avaliados, medidos, analisados, menos temidos porque se sabe mais como preservar-se. Iguais de resto dos dois lados, no Extremo-Oriente e no Ocidente, mais agudos somente no no man’s land que os separa.
Jean-Paul Roux

MEMÓRiA

21JUN1839-1908 - Joaquim Maria Machado de Assis: Escritor brasileiro - «A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários. Há coros numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente…» (Dom Casmurro - 1899). IMAG.196-229-231-253-337-676

25JUN1109-1185 - Afonso I, aliás D. Afonso Henriques: Fundador do Reino de Portugal - «…um poder mais alto se alevanta...» (Luís de Camões - Os Lusíadas).
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1958-25JUN2009 - Michael Joseph Jackson, aliás Michael Jackson: Cantor, compositor e dançarino americano - «Tinha tudo: talento, graça, profissionalismo e dedicação… Perdi o meu irmãozinho; parte da minha alma morreu com ele» (Quincy Jones). IMAG.204-256-411-548-672

1665-27JUN1729 - Elisabeth-Claude Jacquet de la Guerre, aliás Elisabeth Jacquet de la Guerre: Compositora e executante musical francesa - «Para a posteridade, fica a fama e parte de uma obra que representa um momento perfeitamente pivotante na produção musical do seu tempo: o da réunion des gouts entre os estilos francês e italiano, em que se distinguiu e de que são exemplo precoce as suas galantes sonatas e suites para violino e cravo» (João Santos). IMAG.631

1925-29JUN2009 - Jean-Paul Roux: Historiador francês, investigador da mitologia dos povos turco e mongol, especialista em história comparada das religiões - «Antes de virem para a terra, as almas dos humanos residem no céu, onde estão pousadas nos cimos celestes da árvore cósmica, sob a forma de pequeninos pássaros». IMAG.258-497

30JUN1939-2014 - José Emilio Pacheco: Ficcionista e poeta mexicano, autor de Irás y No Volverás (1973), distinguido com o Prémio Cervantes (2009) - «Mi único tema es lo que ya no está / Y mi obsesión se llama lo perdido / Mi punzante estribillo es nunca más / Y sin embargo amo este cambio perpetuo / este variar segundo tras segundo / porque sin él lo que llamamos vida / sería de piedra.» (Contraelegía). IMAG.498

VISTORiA

Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: – Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
Machado de Assis
- Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)

BREVIÁRiO

Orfeu Negro edita Desenhos Efémeros de António Jorge Gonçalves.
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Cinemateca Portuguesa edita em DVD, Lisboa, Crónica Anedótica (1930) de Leitão de Barros (1896-1967).
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E-Primatur edita A Vida e o Sonho de Raul Brandão (1867-1930).
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Dom Quixote edita Portugal de Miguel Torga (1907-1995).  
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Dom Quixote edita Terra de Neve de Yasunari Kawabata (1899-1972); tradução de Armando da Silva Carvalho.
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COMENTÁRiO

LISBOA, CRÓNICA ANEDÓTICA

Em 1930, Leitão de Barros revelou Lisboa, Crónica Anedótica - consagrando-se a tendência para converter a capital em inspiração privilegiada, aqui figura única e típica. Sob o lema Como Se Nasce… Vive… Morre Em Lisboa…, a Crónica é constituída por diversos episódios de variável duração, correspondendo às diferentes facetas da grande urbe, documentais ou de ficção ligeira - humorísticos, pitorescos, históricos, de testemunho. Com produção de Salm Levy Jr, e António Lopes Ribeiro como assistente, Feliciano Santos escreveu os intertítulos. Artur Costa de Macedo operou a fotografia, com Manuel Luís Vieira, César de Sá, e Paul Martillièri nas imagens ao retardador - as primeiras sobre motivos nacionais. A estreia decorreu no São Luiz e no Tivoli, a 1 de Abril de 1930, com distribuição da Companhia Cinematográfica de Portugal. Aliciante, o desempenho de actores maiores do elenco teatral (Adelina Abranches, Chaby Pinheiro, Alves da Cunha, Estevão Amarante, Nascimento Fernandes, Teresa Gomes) ou que vieram a afirmar-se (Rosa Maria, Oliveira Martins, Vasco Santana, Maria Lalande, Augusto Costa/Costinha, Beatriz Costa) encarnando, com persuasão e naturalidade, gente característica ou popular.

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