terça-feira, agosto 30, 2016

IMAGINÁRiO #624

José de Matos-Cruz | 24 Agosto 2017 | Edição Kafre | Ano XIV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

ILUSTRAÇÕES
Em 2000, um dos mais prestigiados criadores portugueses de quadradinhos, também distinto artista plástico, Carlos Alberto Santos regressou ao convívio do grande público com Guerra Peninsular 1, ilustrando a Infantaria 1806-1815. Os seus admiradores de sempre puderam apreciar esta expressão peculiar em Guerra e Paz - Colecção «alicerçada em detalhada e aprofundada informação sobre uniformes, equipamentos, armamentos e organização».
Uma iniciativa das Edições Destarte, dirigida por Jorge Linhares e com apresentação bilingue, sendo autor do texto Manuel A. Ribeiro Rodrigues. Em Prefácio, faz-se luz sobre a história: «A organização do Exército de 19 de Maio de 1806, ampliada pelo Decreto de fins de Outubro de 1807, não chegou a ter execução prática senão em 1808, em virtude de, a 30 de Novembro de 1807, Junot - à testa de quarenta e cinco mil homens de tropas francesas e espanholas - ter invadido Portugal sem declaração de guerra, com a desculpa de nos quererem livrar da “influência maligna” da Inglaterra». Aos leitores atraídos para além da banda desenhada, sugerem-se ainda As Campanhas Ultramarinas 1961/1974 - Guiné, Angola e Moçambique - Exército (2000). IMAG.149-256-487

COMENTÁRiO

Na sua lírica fluidez, Meteorologias envolve-nos numa experimentação silenciosa com o tempo, a duração e o ritmo. A sua forma – o estilo mutável dos desenhos, a sequenciação das vinhetas e a composição das páginas – suscita uma reflexão sobre temporalidades múltiplas que se entrelaçam: a duração e as cadências variáveis da leitura, a velocidade e as intensidades do desenho, bem como a relação entre o tempo histórico, de escala humana, e o profundo e anti-humano tempo geológico.
Aarnoud Rommens
- Prefácio a Meteorologias de Diniz Conefrey

CALENDÁRiO

¯1928-28MAI2016 - Vicente Maria do Carmo de Noronha da Câmara, aliás D. Vicente da Câmara: Fadista português, intérprete e autor, distinguido com o Prémio Amália Rodrigues/Carreira (2013) - «O que é a aristocracia? A aristocracia tanto pode estar no povo, como noutra coisa qualquer… O aristocrata é aquele que sobressaiu».

¢02JUN-04SET2016 - Museu de Évora apresenta as exposições de pintura Ilha dos Imortais de Tereza Trigalhos e Global Make - Up Program de Zoran (Sérvia).

03JUN-03JUL2016 - Em Setúbal, Galeria da Casa da Cultura apresenta Fónix - exposição de ilustração de Nuno Saraiva.IMAG.4-311-424-538

06JUN2016 - Em Ourique, Centro de Arqueologia Caetano de Mello Beirão expõe Depósito Votivo de Garvão - II Idade do Ferro.

VISTORiA

Carta a Ninguém

Não tornes a queixar-te! Se morreu
aquele grande amor e malfadado,
porque o mataste, filha? Ai! o culpado
bem vês que não fui eu…

Julguei-te abandonada, solitária:
quis fazer da tu’alma a ideal
e doce irmã da minha... e afinal
ela era como as outras? ordinária…

Não tornes a queixar-te mais de mim!
Eu não te posso amar: amar assim,
como os outros, não sei... era um engano…

Foi bem maior que a tua a minha dor:
tu sofreste o desamor,
mas eu, filha, sofri? o desengano…
Manuel Laranjeira
- Comigo. Versos Dum Solitário

VISTORiA

Durante algumas semanas, levei uma vida miserável no bosque, procurando curar a ferida aberta. A bala tinha entrado no ombro e não sabia se lá havia ficado alojada; fosse como fosse, não dispunha do necessário para a extrair. O meu padecimento era ainda acrescentado pela injustiça e ingratidão com que fora tratado. Diariamente jurava vingar-me, jurava uma profunda e mortífera vingança, a única que poderia compensar-me dos ultrajes e das agonias que suportara.
Ilustração de Bernie Wrightson
Passadas várias semanas, a minha ferida curou e prossegui viagem. Já nem o sol brilhante nem as benfeitoras brisas primaveris conseguiram aliviar-me nos meus esforços; todo o júbilo era apenas um engano que insultava o meu estado de desolação, e fazia-me sentir mais dolorosamente que não fora criado para desfrutar nada na vida.
Mary Shelley
- Frankenstein (excerto)
A Serpente Que Dança

Em teu corpo, lânguida amante,
Me apraz contemplar,
Como um tecido vacilante,
A pele a faiscar.
Em tua fluida cabeleira
De ácidos perfumes,
Onde olorosa e aventureira
De azulados gumes,
Como um navio que amanhece
Mal desponta o vento,
Minha alma em sonho se oferece
Rumo ao firmamento
Teus olhos que jamais traduzem
Rancor ou doçura,
São jóias frias onde luzem
O ouro e a gema impura.


Ao ver-te a cadência indolente,
Bela de exaustão,
Dir-se-á que dança uma serpente
No alto de um bastão.
Ébria de preguiça infinita,
A fronte de infanta
Se inclina vagarosa e imita
A de uma elefanta.
E teu corpo pende e se aguça
Como escuna esguia,
Que às praias toca e se debruça
Sobre a espuma fria.
Qual uma inflada vaga oriunda
Dos gelos frementes,
Quando a água em tua boca inunda
A arcada dos dentes
Bebo de um vinho que me infunde
Amargura e calma,
Um líquido céu que se difunde
Astros em minha alma!
Charles Baudelaire
(tradução de Ivan Junqueira)

PARLATÓRiO

¢Só os maus artistas pensam que têm uma boa ideia. Um bom artista não precisa de nada…
Quando aparece algum jovem e pergunta onde deveria estudar pintura, a nossa vontade é recomendar algum lugar, mas a verdade é que nenhum lugar existe. Eu não saberia sugerir onde aprender…
—Ad Reinhardt
MEMÓRiA

17AGO1877-1912 - Manuel Laranjeira: Escritor e médico português - «Ânsia de amar! oh ânsia de viver! / Uma hora só que seja, mas vivida / e satisfeita… e pode-se morrer / – porque se morre abençoando a vida!» (A Tristeza de Viver). IMAG.143-359

¯24AGO1837-1924 - François Clément Théodore Dubois, aliás Théodore Dubois: Compositor, pedagogo e organista francês, maître de chapelle das Igrejas de Santa Clotilde e da Madalena (1869-1877), professor de harmonia e composição do Conservatório de Paris (1871), membro da Academia de Belas-Artes (1894).

25AGO1867-1905 - Mayer André Marcel Schwob, aliás Marcel Schwob: Escritor francês, autor de Vidas Imaginárias - «Pensa no momento… Todo o pensamento que perdura, é uma contradição!» (O Livro de Monelle). IMAG.369-502

25AGO1767-1794 - Louis Antoine Léon de Saint-Just: Ideólogo e revolucionário francês - «Todas as artes só criaram maravilhas; a arte de governar apenas produziu monstros».IMAG.476

¨ 1928-27AGO2007 - Alberto Correia de Lacerda, aliás Alberto de Lacerda: Poeta português, cofundador da revista Távola Redonda, autor de Átrio (1997) - «Os poemas / envelhecem // Alguns / (muito poucos) / vão deitando raízes / desconhecidas // No ramo mais alto / o bafo dos deuses». IMAG.163

¸ 1906-28AGO1987 - John Marcellus Huston, aliás John Huston: Cineasta americano, realizador, argumentista e actor - «Os críticos nunca conseguiram encontrar, nos meus filmes, um tema unificador… Para dizer a verdade, eu também não».IMAG.68-83-120-306-449-477-581

29AGO1817-1864 - John Leech: Ilustrador e caricaturista inglês, artista litográfico, recriou o imaginário da primeira edição de Cântico de Natal / A Christmas Carol (1943) de Charles Dickens, ou The Comic History of Rome (1852) de Gilbert Abbott A Beckett. IMAG.447-488

30AGO1797-1851 - Mary Wollstonecraft Godwin, aliás Mary Shelley: Escritora inglesa, ficcionista e ensaísta - «A mesma energia de carácter que transforma um homem num vilão perigoso, poderia reverter a bem da sociedade, caso esta estivesse bem organizada». IMAG.26-79-94-309-365-530-617

¢1913-30AGO1967 - Adolph Frederick Reinhardt, aliás Ad Reinhardt: Pintor norte-americano, abstracto e conceptual, entre a vanguarda e o modernismo - «Arte é Arte. Todo o resto é todo o resto… Pela minha parte, tentei opor o académico ao mercado».IMAG.448

1821-31AGO1867 - Charles-Pierre Baudelaire, aliás Charles Baudelaire: Poeta francês - «Odeio do oceano as iras e os tumultos, / Que retratam minh’alma! O riso singular / E o amargo do infeliz, misto de pranto e insultos, / É um riso semelhante ao do soturno mar.» (Obsessão - excerto). IMAG.44-69-144-318-524

BREVIÁRiO

Quarto de Jade edita Meteorologias de Diniz Conefrey.IMAG.289-301-325-332-377-395-430-448-504-534-596

segunda-feira, agosto 29, 2016

IMAGINÁRiO #623

José de Matos-Cruz | 16 Agosto 2017 | Edição Kafre | Ano XIV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

RECRIAÇÕES
A par com George Lucas - seu amigo, sócio e rival - Steven Spielberg permanecerá como um dos grandes e geniais criadores, no historial da indústria artística que o cinema simboliza, sob o signo de Hollywood. Mas ninguém como ele, na América actual, rubricou o imaginário com a chancela de autor, ou deu expressão irradiante à aventura como espectáculo. Aprofundando as emoções colectivas.
Em 1993, com Parque Jurássico/Jurassic Park, Spielberg converteu-se num exemplo, como realizador/produtor entre os melhor sucedidos, na lista de recordes: cerca de 920 milhões de dólares em todo o planeta, as maiores receitas de sempre! Em Parque Jurássico, o excêntrico milionário John Hammond realiza o seu grande sonho: a abertura de um fantástico Parque de Diversões em Nublar, uma ilha ao largo da Costa Rica. Mas, apesar do extremo secretismo, alastram os rumores: sobre uma série de inexplicáveis acidentes durante a construção, e questões perturbantes quanto à segurança do recinto. Os investidores da InGen entram em pânico, tentando abafar o escândalo e acabar com o complexo antes de ser inaugurado…
IMAG.18-23-44-63-71-72-80-88-93-136-147-155-159-171-183-199-225-273-304-383-388-391-412-443-445-465-484-488-506-535-576-583-585-604-608-619

CALENDÁRiO

¢21MAI-09JUL2016 - Em Lisboa, Fundação Carmona e Costa expõe O Segredo da Sombra - Obras Sobre Papel 2012-2016 de Pedro Calapez, sendo curador João Miguel Fernandes Jorge. IMAG.65-393-427

¢24MAI-27JUN2016 - Em Lisboa, Galeria São Mamede expõe Escultura e Desenho de Jorge Vieira (1922-1998).

¢
24MAI-25SET2016 - Em Lisboa, Museu Arpad Szènes-Vieira da Silva apresenta Backstories - exposição de Mitsuo Miura, Pedro Calapez e Rui Sanches, sendo curadora Ana Ruivo. IMAG.65-393-427-461-603

µ28MAI-30JUL2016 - Em Lisboa, Clube Lusitano apresenta Lisboa | Tejo | Lisboa - exposição de fotografia de Jean-François David/Manuel M. Pinturache e Nuno Perestrelo.

VISTORiA

Ó Virgens Que Passais

¨Ó virgens que passais, ao Sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido lar.

Cantai-me, nessa voz omnipotente,
O sol que tomba, aureolando o Mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a graça, a formosura, o luar!

Cantai! Cantai as límpidas cantigas!
Das ruínas do meu lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho, como um ai…
Ó suaves e frescas raparigas,
adormecei-me nessa voz… cantai !
António Nobre

sem um numero
um numero
numero
zero
um
o
nu
mero
numero
um numero
um sem numero
Décio Pignatari

VISTORiA

Memória
¨Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Carlos Drummond de Andrade

MEMÓRiA

¨ 16AGO1867-1900 - António Pereira Nobre, aliás António Nobre: Poeta português, autor de - «A Lua! Ela não tarda aí, espera! / O mágico poder que ela possui / Sobre as sementes, sobre o oceano impera, / Sobre as mulheres grávidas influi…» (Da Influência da Lua - excerto). IMAG.143-267-307

1935-16AGO1977 - Elvis Aaron Presley, aliás Elvis Presley: Cantor, músico e actor americano, the King of the Rock and Roll - «A verdade é como o sol: pode ocultar-se durante um tempo, mas volta sempre a aparecer». IMAG.20-160-189-322-337-372-416-498

¨ 1902-17AGO1987 - Carlos Drummond de Andrade: Ficcionista e poeta brasileiro - «Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira». IMAG.79-384-392-543

1843-18AGO1897 - José Tomaz de Sousa Martins: Médico e professor catedrático da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, exemplo na caridade e protecção aos mais desfavorecidos - «Era um verdadeiro sábio, um artista de raça, orador de rara facúndia, professor com todos os talentos que se podem desejar, funcionário exemplaríssimo, dotado de inexcedível bondade, caritativo até ao excesso, carácter diamantino, como raras vezes se haverá encontrado outro - reunia em si os mais variados talentos e virtudes, como nunca vi associados n’outro homem» (Conselheiro Silva Amado - Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa). IMAG.169-554

18AGO1917-2012 - Francisco Igrejas Caeiro, aliás Igrejas Caeiro: Actor português de teatro e cinema, encenador e radialista, fundador do Teatro Maria Matos e responsável por Os Companheiros da Alegria (1951) - «Um homem sempre atento, solidário e com uma acção muito activa… Uma vida que se expandiu pelo teatro, pelo cinema, pela televisão, pela música: foi um homem que levou ao palco muita gente em todo o país» (José Jorge Letria). IMAG.318-398

20AGO1927-2012 - Décio Pignatari: Poeta brasileiro, ligado ao modernismo/concretismo - «O maior poeta-inventor da minha geração, e um dos maiores da literatura de língua portuguesa de todos os tempos… Incomodava universidades e academias» (Augusto de Campos). IMAG.88-442

®20AGO1947-2014 - José Wilker Almeida, aliás osé Wilker: Actor brasileiro de teatro, cinema e televisão, protagonista de Roque Santeiro (1985) - «Actor, crítico de cinema e exemplo de dedicação à arte, presenteou-nos com interpretações que se tornaram ícones do cinema e da tv» (Dilma Roussef). IMAG.507

BREVIÁRiO

¨
Companhia das Letras edita Contos de Aprendiz de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

¨Matéria-Prima edita O Assassino de Catarina Eufémia (1928-1954) de Pedro Prostes da Fonseca.

PARLATÓRiO

Não sou santo, mas sempre tentei não fazer nada que magoasse a minha família ou ofendesse a Deus.
Elvis Presley

TRAJECTÓRiA

ELVIS PRESLEY - O ACTOR CANTOR
Um dos expoentes da iconolatria musical da América, no Século XX, Elvis Presley (1935-1977) destacou-se como estrela de cinema, em 33 longas metragens que renderam mais de 150 milhões de dólares. E o próprio King of the Rock and Roll foi alvo de várias fitas, como personagem ou em testemunho: desde o primeiro disco (1953) ao regresso a Las Vegas (1969), em Elvis Show (1970 - Denis Sanders), ou Elvis On Tour (1972 - Pierre Adidge & Robert Abel); numa estilização a cargo de Kurt Russell, em Elvis (1979 - John Carpenter); Elvis, o Ídolo Imortal (1981 - Malcolm Leo & Andrew Solt) combina documentários e recriação; Dale Midkif participou em Elvis e Eu (1988 - Larry Peerce), partindo de uma biografia da mulher Priscilla; Val Kilmer assumiu Amor à Queima-Roupa (1993 - Tony Scott)…
A carreira Elvis como actor começou por ser orientada para rendibilizar, na tela, o fenómeno de popularidade como cantor, sobretudo em comédias românticas. Entretanto, o êxito cinematográfico motivou a escolha de argumentos com um maior realismo, atribuindo ainda densidade às suas figurações. Por outro lado, passaram a ser escolhidos realizadores e intérpretes com prestígio, além de assegurar-se o contributo de compositores que revertessem o sucesso musical de Elvis Presley. Os filmes da sua época áurea foram produzidos pela Paramount, destacando-se: Balada Sangrenta (1958 - Michael Curtiz), Café Europa (1960 - Norman Taurog), Hawai Azul (1961 - Norman Taurog) ou Romance No Luna Park (1964 - John Rich).

quarta-feira, agosto 10, 2016

IMAGINÁRiO #622

José de Matos-Cruz | 08 Agosto 2017 | Edição Kafre | Ano XIV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

AFEIÇÕES
No panorama pós-moderno dos quadradinhos americanos, não é Babe, nem Miss Piggy, a assinalar o Triunfo dos Porcos… Sagrando uma tradição sob o signo de Walt Disney, que transfere para o reino dos animais a familiaridade das alegrias e desgraças humanas, a independente Olivia assumiria, com irresistível toque feminino, o talento artístico de Ian Falconer.
Considerado um dos melhores álbuns do ano 2000, e tendo vendido 250 mil exemplares na primeira edição, Olivia manteve intactas as suas virtualidades primordiais: um sortilégio heróico capaz de fascinar adolescentes e adultos; um caracter afeiçoado à identificação pelos leitores de todo o mundo. Rebelde, culta, carinhosa, sofisticada, estilizando o vermelho como sua cor favorita, entre os matizes do preto-e-branco, o sucesso de Olivia culmina, afinal, os valores essenciais da banda desenhada: a simplicidade, a crítica, a surpresa, a cumplicidade. Prestigiado ilustrador e designer - entre o grafismo em The New Yorker, os cenários da Ópera de São Francisco, ou os figurinos para o Ballet de Nova Iorque - Falconer inspirou-se numa sobrinha para dar vida a Olivia, que por acaso tem um irmão que se chama Ian!

CALENDÁRiO

¢05MAI-01JUL2016 - Em Lisboa, Igreja de São Cristóvão apresenta Ascensão - exposição de Rui Chafes, integrada em Não Te Faltará Distância /Arte Por São Cristóvão, sendo curador Paulo Pires do Vale. IMAG.65-299-364-427-461-500-568-582-612

¢24MAI-09JUL2016 - Em Lisboa, Casa da Liberdade - Mário Cesariny apresenta Na Feliz Miscigenação das Coisas - exposição de pintura de Manuela Jardim, sendo curador Carlos Cabral Nunes.

VISTORiA

Beijemo-nos, Apenas

¨Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda
Para um momento melhor
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde;
E a convivência contigo
Modificou-me – sou outro…

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos – És lindo!

A morte,
Devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: – Não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos apenas,
Que mais precisamos nós?
-António Botto

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
-Miguel Torga
COMENTÁRiO

António Botto
¨ A elegância espontânea do seu pensamento, a dolência latente de sua emoção asseguram-lhe facilmente, conjugando-se, a mestria nesta espécie de lirismo…
Distingue-se pela simplicidade perversa e pela preocupação estética destituída de preocupações. Foge da complicação com o mesmo ardor com que se esconde da intenção directa. É em verdade singular que se seja simples para dizer exactamente outra coisa, e se vá buscar as palavras mais naturais para por meio delas ter entendimentos secretos.
Certo é que o que António Botto escreve, em verso ou em prosa, há que ser lido sempre com a intenção posta em o que não está lá escrito.
-Fernando Pessoa
- Prefácio a Motivos de Beleza (1923)
de António Botto
MEMÓRiA

¨ 09AGO1927-2014 - Daniel Keyes: Professor e escritor americano, autor de Flowers For Algernon (1966), distinguido com o Prémio Nebula - «As pessoas acham engraçado que alguém pouco inteligente possa fazer as mesmas coisas que elas… Por vezes, somos capazes de desprezarmos a nós próprios. Sabendo que temos atitudes inconvenientes e, mesmo assim, não conseguindo evitar tais comportamentos». IMAG.521

10AGO1897-1935 - Reinaldo Ferreira, o Repórter X: Escritor, jornalista e cineasta português - «Figura lendária do jornalismo português, teve, nas primeiras décadas do século, um lugar de grande evidência, que se projectou além do espaço temporal em que viveu e escreveu» (António Valdemar). IMAG.6-53-142-161-175-533

¨ 11AGO1897-1968 - Enid Mary Blyton, aliás Enid Blyton: Escritora inglesa, de Os Cinco, Os Sete, Noddy, Uma Aventura Em…, O Segredo de…, As Gémeas ou O Colégio das Quatro Torres - «As crianças começaram a ficar muito entusiasmadas. Ia ser divertido visitar um lugar onde nunca tinham estado, e ficarem em casa de uma prima que nunca haviam conhecido». IMAG.147-204-229-495-550

1862-11AGO1937 - Edith Newbold Jones, aliás Edith Wharton: Escritora americana, distinguida com o Prémio Pulitzer por A Idade da Inocência (1920) - «Há apenas duas maneiras de difundir a luz - ser uma vela, ou o espelho que a reflecte». IMAG.564

12AGO1907-1995 - Adolfo Rocha, aliás Miguel Torga: Escritor português - «Sei um ninho. / E o ninho tem um ovo. / E o ovo, redondinho, / Tem lá dentro um passarinho / Novo. // Mas escusam de me atentar: / Nem o tiro, nem o ensino. / Quero ser um bom menino / E guardar / Este segredo comigo. / E ter depois um amigo / Que faça o pino / A voar…». IMAG.21-142-165-168-217-261-288-307-342-352-499-538-610

13AGO1757-1815 - James Gillray: Ilustrador e caricaturista britânico, celebrado pela crítica política e pela sátira social que estilizou entre 1792 e 1810. IMAG.517

15AGO1897-1970 - Cassiano Viriato Branco, aliás Cassiano Branco: Arquitecto português - «É uma violência à sua memória aparecerem pessoas tentando dar a entender que ele era perverso na arquitectura, ecléctico, disléxico e que, umas vezes, fazia coisas sérias e, outras, uma série de disparates» (Trofa Real). IMAG.142-272-299-447

1831-15AGO1907 - Joseph Joachim: Compositor e violinista húngaro - «Não me é absolutamente simpática a tua música; contradiz tudo o que aprendi dos nossos grandes mestres, desde a minha juventude, como alimento para mente» (a Franz Liszt-1857). IMAG.383

1890-15AGO1977 - Julius Henry Marx, aliás Groucho Marx: Actor americano - «Há cineastas que não sabem inglês, e outros que nada percebem de humor». IMAG.24-136-293

1905-15AGO1987 - Jean Émile Louis Scutenaire: Poeta belga, anarquista e surrealista - «O homem toma por inteligência o uso das suas faculdades de imaginação». IMAG.520

¨ 17AGO1897-1959 - António Tomás Botto, aliás António Botto: Poeta português, autor de Baionetas da Morte - «O mais / importante na vida / É ser-se criador – criar beleza. // Para isso, / É necessário pressenti-la / Aonde os nossos olhos não a virem.» (Curiosidades Estéticas). IMAG.292-307

PARLATÓRiO

¨ Um editor achou que as minhas obras eram bastante populares, e os bandos de crianças apinhando as livrarias, ao sábado de manhã, tornaram-se um problema.
Enid Blyton

VISTORiA

Um homem na minha posição (neste momento, horizontal) está sujeito a ouvir estranhas histórias a seu respeito. Por exemplo, há anos correu o boato de que fizera figura de parvo, bebendo champanhe pela chinela de Sophia Loren. É um puro absurdo, ainda por cima difamante. Admito que tentei beber, assim, esse líquido borbulhante, mas ela nunca tirou a maldita chinela do pé. Por isso, apanhando-a distraída, foi pela sua bolsa de mão que o bebi, quase sufocando quando, acidentalmente, engoli também o baton.
-Groucho Marx
- Memórias de Um Pinga-Amor (1963)
BREVIÁRiO

¨
Quetzal edita O Lugar das Fitas de Dinis Machado (1930-2008); organização de Marta Navarro. IMAG.218-232-261-267-296-332-387-612-620

¨
Dom Quixote edita Tereza Batista Cansada de Guerra de Jorge Amado (1912-2001). IMAG.333-382-405-407-460

¨ Relógio D’Água edita O Separar das Águas e Outras Novelas de Hélia Correia. IMAG.38-69-232-233-263-574

segunda-feira, agosto 01, 2016

IMAGINÁRiO #621

José de Matos-Cruz | 01 Agosto 2017 | Edição Kafre | Ano XIV – Semanal – Fundado em 2004
PRONTUÁRiO

RESCALDOS
O 25 de Abril de 1974 abriu e forjou a carreira de Luís Filipe Rocha, testemunhada com um talento singular e solidário. Ao longo dos anos e dos filmes manifestos, mantiveram-se a integridade e a coerência do cineasta, que assumiria também, em tal intervenção artística, as suas virtualidades de evolução e maturidade. Através de várias longas metragens, pairam os valores intrínsecos da sensibilidade e da sobriedade. Em Camarate (2000), Luís Filipe Rocha culminou o melhor de um compromisso pessoal sobre a nossa realidade colectiva.
Expondo um envolvimento aliciante, prospectivo, entre as pessoas e os eventos. Tudo remonta à noite de 4 de Dezembro de 1980, durante a campanha para as eleições presidenciais. Uma avioneta Cessna 421, acabada de descolar do Aeroporto de Lisboa, despenha-se e arde em Camarate, vitimando o então Primeiro-Ministro de Portugal, Francisco Sá Carneiro, a sua mulher, Snu Abcassis, o Ministro da Defesa Nacional, Adelino Amaro da Costa, a sua esposa, o Chefe do Gabinete do Primeiro-Ministro, António Patrício Gouveia, e os dois pilotos. Acidente ou atentado? Baseando-se em factos reais, Camarate transita da feição sociopolítica para a docutrama, sob as vertentes especulativa e ficcional. Em evidência estão a chantagem afectiva, os jogos corporativos, a influência emocional, os conflitos de persuasão e de poder. IMAG.5-63-67-168

CALENDÁRiO

12JUL1936-18MAR2016 - Jan Nemec: Cineasta checo, professor e realizador de A Festa e os Convidados / O Slavnosti a Hostech (1966) - «É preciso buscar uma estilização… Um cineasta tem de lograr o seu mundo, inteiramente diferente da realidade». IMAG.521

14MAI-28AGO2016 - Em Évora, Fundação Eugénio de Almeida expõe Todo o Património É Poesia, sendo curadora Filipa Oliveira.

19MAI2016 - Fado Filmes produziu, e estreia Cinzento e Negro (2015) de Luís Filipe Rocha; com Joana Bárcia e Filipe Duarte.

19MAI2016 - NOS Audiovisuais estreia Aqui, Em Lisboa - Episódios da Vida de Uma Cidade (2015) de Gabriel Abrantes, Denis Côté, Marie Losier e Dominga Sotomayor. IMAG.571

19MAI-29JUL2016 - Em Lisboa, Galeria Ratton apresenta O Rosto do Medo - exposição de azulejo, pintura e desenho sobre papel de Graça Morais. IMAG.65-68-139-305-318-448

20MAI-30DEZ2016 - No Estoril, Fundação D. Luís I expõe, no Espaço Memória dos Exílios, O Estoril e a Paisagem Cultural Nos Anos 40.

21MAI2016-14MAI2017 - Na Amadora, Núcleo Museográfico do Casal da Falagueira expõe O G.E.A.R. - Grupo de Esquadrilhas de Aviação República.

25MAI-02OUT2016 - Em Lisboa, Torreão Nascente da Cordoaria Nacional apresenta Sombras, Máscaras e Títeres da Colecção do Museu da Marioneta - exposição de António Viana, Francisco Tropa, Jorge Queiroz e Susanne Themlitz. IMAG.351-399-555-603

25MAI-30OUT2016 - Em Cascais, Casa das Histórias Paula Rego expõe Old Meets New de Paula Rego, sendo curadora Catarina Alfaro. IMAG.11-13-31-199-205-258-269-325-342-351-357-364-370-399-416-464-486-489-515-545-596-597-620

PARLATÓRiO

"Depois de dar uma olhadela por este planeta, qualquer visitante do espaço logo diria:
– Quero falar com o gerente!"
- —William S. Burroughs

INVENTÁRiO

William Burroughs - O Fora-da-lei da Literatura

William Burroughs nunca abandonou seu projeto literário e político de questionar a estrutura da realidade. Sua obra seria melhor lida no contexto da Nova Mitologia que dizia estar criando para nossa época.
Em seu universo mágico e perigoso, o escritor descrevia a presença de estruturas arcaicas em eterno conflito. A realidade humana, no grande circo burroughsiano, nada mais é que «um universo pré-filmado e pré-gravado». Na sua ficção, vive-se numa grande Interzone infestada de piratas homossexuais, políticos mafiosos, serial killers, burocratas viciados, seitas fanáticas, cyborgs e alienígenas. Nesta cidade-mundo, «nada é verdadeiro, tudo é permitido». A própria História é um velho filme que é rebobinado toda vez que chega ao fim, e pode ser alterada apenas através de uma radical Operação Reescrita. A única saída para o escritor é expor o funcionamento dos sistemas de controle e ao mesmo tempo tentar miná-los viroticamente.
Neste cenário pessimista, o corpo humano nada mais é que uma máquina macia programada para satisfazer as necessidades absolutas de seus controladores: a Nova Gangue, um grupo paramilitar intergalático que domina a humanidade através da manipulação da imagem e da palavra. Sua tarefa, na ficção anarquista de Burroughs, é agravar os conflitos humanos colocando num mesmo planeta formas de vida irreconciliáveis. Para o autor, uma nova mitologia, nos termos que propõe, só seria possível na era espacial, «onde teremos novamente heróis e vilões quanto às suas intenções para com este planeta».
Pelos labirintos da grande zona textual de seus romances, circulam personagens que parecem saídos da realidade, como Dr. Benway, inescrupuloso médico cujo maior feito foi ter retirado o apêndice de um paciente com uma lata de sardinha enferrujada. Há também Mr. Bradley Mr. Martin, «um Deus que fracassou, um Deus do Conflito, o inventor da cruz dupla, dos dualismos». Existem os Mugwumps, répteis alienígenas que sugam humanos (chupa-cabras?) e garotos heavy metal (termo extraído de sua obra). E, claro, há o Estúdio Realidade, onde imagens e representações do mundo ao vivo estão a todo instante sendo editadas e manipuladas. A tarefa da Polícia Nova, liderada pelo Inspetor Lee, é expulsar os invasores e liberar o planeta. Profeticamente, em Naked Lunch, de 1959, Burroughs apresentava um vírus letal e misterioso (também chamado de B-23 ou vírus do amor), e que teria surgido na África, atacando principalmente homossexuais.
A obra de Burroughs – que engloba intervenções em áreas diversas – pode ser entendida como uma grande teia onde se entrecruzam disciplinas como filosofia, antropologia, psicanálise, política, pintura, cinema e cultura pop. Por isso, ela acabou contaminando personalidades de diversas áreas, como David Cronenberg, Robert Wilson, e artistas como Brian Eno, Lou Reed, Tom Waits, David Bowie, Patti Smith e Laurie Anderson.
Rodrigo Garcia Lopes
- Revista Cult (Brasil – 1997, excerto)
GALERiA

Old Meets New - Paula Rego

Old Meets New apresenta parte da produção mais recente de Paula Rego, realizada entre 2013 e 2015. As séries de pintura d'A Relíquia (2013) e d'O Primo Basílio (2015) são inspiradas nos romances homónimos de Eça de Queiroz.
A exposição mostra, pela primeira vez em Portugal, o regresso a narrativas do escritor do século XIX. Na obra recente de Paula Rego, essas ficções são encenadas, representadas e reinterpretadas num espaço de intimidade onde estas histórias ganham vida própria, através dos modelos vivos  - e sobretudo de Lila Nunes  - que seguem as visões da artista, enriquecendo-as sempre com as suas vivências e as suas próprias versões das histórias.
Paula Rego estabelece, como ponto de partida narrativo para as suas novas série de obras, os dramas morais e sociais construídos nos finais do Século XIX, numa relação directa com a literatura próxima da crítica de costumes, reinterpretando o retrato político, social e psicológico da sociedade portuguesa.

BREVIÁRiO

Universal edita em CD, sob chancela Decca, Jean Sibelius [1865-1957]: Songs por Tom Krause e Elisabeth Söderström, com os pianistas Irwin Gage e Vladimir Ashkenazy, e o guitarrista Carlos Bonell. IMAG. 213-402-404-542-551-602

Dom Quixote edita Os Voláteis de Fra Angelico de Antonio Tabucchi (1943-2012); tradução de Helena Domingos e Maria da Piedade Ferreira. IMAG.269-273-404-421-535

MEMÓRiA

1914-02AGO1997 - William Seward Burroughs, alias William S. Burroughs: Escritor e pintor americano - «Não poderia existir uma sociedade em que as pessoas não sonhem… Elas estariam mortas, passadas duas semanas». IMAG.85-141-484

05AGO1397-1474 - Guillaume Dufay: Compositor da escola franco-flamenga, de início do Renascimento, tendo influenciado autores como Josquin, Martini, Obrecht e Ockeghem. IMAG.395-492

06AGO1937-2014 - Charles Edward Haden, aliás Charlie Haden: Contrabaixista e compositor americano, cuja discografia inclui For a Free Portugal (1976) - «A próxima canção é dedicada aos movimentos de libertação do povo de Moçambique, Guiné e Angola» (1971 - I Festival Internacional de Jazz de Cascais). IMAG.337-525-547